segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Da arte de se relacionar.

Esse final de ano passado fui tomado de um ato de coragem. Um ato que você não tomou pra sua vida, aliás. Romper as barreiras, quebrar o silêncio, olhar pra si e (re)descobrir o que não me faz feliz da forma como eu almejo. Eu praticamente saí do armário outra vez (o que me lembra a escrever sobre o assunto: não aos não-assumidos)

Vivemos, juntos a nossa maneira, por três anos. Foi um tempo bom, repleto de carinho, atenção, cumplicidade. Anos de companherismo, de bons momentos, de momentos ruins, de momentos péssimos, de momentos incríveis. Sem dúvida, o máximo que já consegui atingir em termos de relacionamento amoroso.

E mesmo diante daquilo que parecia, em tese, "perfeito" em sua imperfeição, eu me percebi infeliz. Infeliz pelo fato que te proporcionava muito daquilo que eu gostaria de viver em contrapartida. Sim, eu tenho o sonho de almoços aos domingos na casa da sogra, de ter cunhados, de ter uma família que não seja, pelo sangue, a minha. De construir família, pela união de dois. E de, às cinco da manhã, te ligar pra dizer que estou com saudade e, logo depois, ser surpreendido por você, a minha porta, com cara de sono e de apaixonado.

Você tinha isso em mim. Era o cunhado do irmão caçula, o genro da mãe de três filhos homens, o namorado do primo-melhor-amigo, o companheiro do sobrinho que é amado "independente de qualquer coisa". Não tenho a família ideal, mas tenho família e sei que posso contar com ela sempre. E você fez parte disso. Fez parte da construção de tudo isso, inclusive.

Quando você me conheceu, sabia o que eu tinha a oferecer além do meu amor, da minha cumplicidade, do meu carinho, do meu eu-namorado. Sabia que minha bagagem era grande, ainda que suave. Eu, na minha visão, achava que "apenas", já que não é pouco, o seu eu-namorado me era suficiente. E foi, em grande parte. Mas eu queria mais, eu sinto que eu mereço mais. E por quê? Não sei... Porque acredito na felicidade em termos amplos, acho. Porque das escolhas que fiz na vida, as consequências foram mais suaves que meu pior pesadelo poderia supor.

Então, oras, se diante dos obstáculos individuais eu não sucumbi, por quê não dar um passo seguinte? Por quê não evoluir, com ou sem você, ainda que eu permaneça querendo que seja com você, pra viver uma história ainda mais cúmplice, ainda mais completa, ainda mais não-baseada somente em mim e na minha bagagem? Isso me deu coragem para dizer a você que eu o amo, e ainda mais para dizer que não estava feliz.

Juro, não foi por não te querer que me mostrei como sou. Foi por querer mais de você. Foi por estar ali, entregue, eu, e não sentir o retorno. Talvez ele até existisse, ao seu modo. Talvez não, o retorno existiu sim. Mas, ingenuamente, me foi insuficiente com o passar dos anos.

Me doía ver que você não percebia que a vida é feita de escolhas... Que, sim, poderia ser um dramalhão mexicano que você se/me assumisse como seu legítimo companheiro e como o cara que você pretendia viver pro resto da vida, ou até que valesse a pena. Ou que não, que o que mais importa, depois do "susto", é que você, neguinho, seja feliz. Comigo foi assim. Só mudou a coloração.

E hoje? Por quê eu falo disso com um certo pesar, já que a escolha do meu outing de você foi um caminho que eu, ao menos, provoquei ao me mostrar infeliz? Porque foi bom, foi gostoso, foi edificante construir tudo isso ao seu lado... E desfazer disso... Bem... Dói, dá saudade do tempo que foi suficiente, incomoda por perder o seu eu-namorado.

Se tivesse sido ruim, seria alívio, ainda que também doesse. Mas foi bom, valeu a pena, repetiria de novo se assim você quisesse. Mas não quer.

Necessário, então, tomar outro ato de coragem. Estou, por enquanto, fazendo coisas que sempre fiz... Porque é mais confortável, já sei o caminho. Mas me conheço, ao menos um pouco. Sei que a reinvenção está por vir. Talvez até sendo construída enquanto cometo os mesmos atos...

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